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  • Foto do escritor: Arquivo Sáfico
    Arquivo Sáfico
  • 23 de mar. de 2019
  • 6 min de leitura

Existem muitas dúvidas sobre os conceitos de bissexualidade e pansexualidade. Confesso que eu própria não entendo muito bem a diferença prática entre os dois conceitos. Não é que eles não tenham diferença, simplesmente me parece que na prática, em relação aos géneros das pessoas por quem nos sentimos atraídas, muitas vezes acaba por serem os mesmos. 


Por vezes a diferença está mais na forma como nos vemos a nós próprias (como nos identificamos) e como vemos os outros, ainda que na prática uma pessoa bissexual e uma pessoa pansexual possam sentir-se atraídas pelo mesmo leque de géneros.


Quando se fala em pansexualidade, há um statement em que se fala mesmo em todos os géneros, enquanto que pessoas bissexuais poderão sentir-se atraídas por todos os géneros ou não, sendo certo que se sentem atraídas por mais do que um.


Então porque é que uma pessoa que se sente atraída por alguém, independentemente do género se identificaria como bi e não como pan? Ou porque é que, se o termo bi já abarca todos os géneros, uma pessoa se identificaria como pan? A isto, só a própria pessoa poderá responder. Voltando ao ponto acima em que refiro a forma como nos vemos a nós próprias, como nos identificamos, a resposta básica a porque é que alguém é pan e alguém é bi seria: porque se identifica enquanto tal.


De qualquer maneira, fica aqui uma explicação que encontrei algures na internet: "Enquanto uma pessoa que se auto-domina bissexual reconhece os diferentes géneros e os encara de forma diferente (podendo a perceção de diferenças levar a uma atração de diferentes graus conforme o género), uma pessoa pansexual sente atração por todos os géneros sem fazer distinção, por isso é definida como atração independentemente do género".


Não sei se todas as pessoas pansexuais se identificarão com esta definição, acreditando efetivamente que para uma pessoa pansexual possam também existir diferentes graus de atração consoante cada género, mas quanto a esta questão só as pessoas pansexuais saberão responder.


A mim, enquanto pessoa bissexual, a quem já disseram que me devia identificar como pansexual, por não me sentir atraída só por homens e mulheres (o que é deveras irritante) resta-me recuar ao Manifesto Bissexual, em que os bissexuais já alertavam em 1990: "Não assumam que a bissexualidade é naturalmente binária ou poligâmica, que nós temos "dois" lados ou que precisamos de nos envolver simultaneamente com dois géneros para nos sentirmos seres humanos completos. De facto, não assumam que existem apenas dois géneros." Pelo que também seria de bom tom parar de dizer que a diferença é que bissexual "gosta" de dois géneros, masculino e feminino, e pansexual "gosta" de todos. 


Portanto, a definição de bissexual será algo como "pessoa que se sente atraída por mais do que um género", "por múltiplos géneros" ou "por pelo menos dois géneros (géneros similares e géneros diferentes)", enquanto que Pansexual será a "pessoa que se sente atraída por todos os géneros ou independentemente de género".


Dos artigos que fui lendo, o que melhor explica esta diferença, do meu ponto de vista, foi o do blogue "Estanteante", que podem ver AQUI. Pelo menos a definição de bissexual está de acordo com a minha definição de bissexual enquanto pessoa bissexual. Para mim, foi um daqueles textos que às vezes lemos e pensamos "esta pessoa conseguiu traduzir pensamentos meus". 


Numa reflexão mais pessoal, diria que, para mim, o termo bissexual traz mais visibilidade ao facto de existirem outras orientações sexuais para além da dicotomia heterossexual/homossexual, enquanto que o termo pansexual traz mais visibilidade ao facto de existirem mais géneros para além da dicotomia masculino/feminino e cada pessoa naturalmente se identificará com o termo que mais se aproxime da visibilidade que mais precisa.



Há ainda pessoas que se identificam como polisexuais, em que aqui o statement seria que neste espetro de atração "são sim mais do que dois géneros mas não gosto de todos".

Bandeira Polissexual
Bandeira Polissexual

Parte do que li sobre a criação do termo polissexual remetia, mais uma vez, para o facto de bissexual ser um termo binário, que não inclui mais géneros para além do masculino e feminino, o que é uma perceção errada.


O único exemplo em que consigo pensar que me faça sentido seria o que vi de uma pessoa que se sente atraída por toda a gente menos homens cis e entende que o termo pan remete para todos, logo já não se identifica, e que o termo bi remete não só mas também para homens e mulheres, sendo que homens remete também para homens cis, logo já não se identifica.


De qualquer maneira, a maneira como as outras pessoas se identificam não tem de fazer sentido para mim, tem de fazer sentido para elas e creio que todos os termos são válidos. O que não é válido é querer que as pessoas deixem de se identificarem com os seus próprios termos por se entenderem significados diferentes para os mesmos.


Portanto, o statement do termo bissexual seria mais relativo ao binarismo na orientação sexual do que às identidades de género do espetro de atração - existem mais orientações sexuais para além de hetero e homossexual - não sou hetero nem homo, sou bi. O statement do termo pansexual - existem mais do que dois géneros e sinto atração por todos - não me sinto atraída só por homens e mulheres e sim por pessoas, sou pan. O statement do termo polissexual - existem mais do que dois géneros mas não me sinto atraída por todas, sou poli (polissexual, diferente de poliamorosa).


E pelos vistos identifico-me mais com o primeiro statement.


Em teoria também gosto de todos os géneros (poderia identificar-me como pan?), mas não é um statement de que precise para mim. Nem sei realmente se gosto de todos os géneros até porque não sei se conheço sequer todos os géneros  (poderia identificar-me como poli?), nem preciso de tantas certezas quanto a isto, logo talvez por isso não me identifique com o termo pan/todos, nem com o termo poli, porque também não me identifico com esse stament de "mas do que dois mas não todos". Podem até ser todos. Podem até ser mais do que dois mas não todos. Para mim o género é tão irrelevante e tão único e próprio de cada pessoa, ao mesmo tempo que é tão óbvio na minha cabeça que podem existir mais do que dois géneros que nela não há grande espaço para discussões neste campo. (Engraçado que também pode funcionar ao contrário, "como não sei de que géneros gosto ou que géneros existem prefiro identificar-me com todos (ou com mais do que dois mas não todos)", e haverá pessoas a identificar-se nestes termos e outras que se identificam com "todos" mesmo, por também ser irrelevante o género da pessoa pelo qual se atraem. E às vezes pessoas que até têm formas semelhantes de viverem a sua sexualidade simplesmente se identificam com termos diferentes, e está tudo bem).


Enquanto que na orientação sexual foi uma luta até chegar ao ponto em que descobri que existia o termo bissexual e que efetivamente não tinha de "escolher" exclusivamente um género, nem existia só hetero ou homossexual, e talvez por isso me identifique mais com este termo que finalmente me trouxe sentimentos de clareza e pertença. Suponho que para algumas pessoas isto também aconteceu inicialmente e depois descobriram o termo pan e aí abriu-se toda uma nova clareza dentro delas. E descobriram que afinal eram pansexuais e não bissexuais. E outras que quando descobriram o termo pan ficaram na dúvida entre bi e pan e depois descobriram o termo poli e foi toda uma nova clareza também. E descobriram que afinal eram polissexuais e não pan nem bi. Não foi o meu caso. Não sinto mesmo necessidade de. Para mim o termo bi abarca todas estas possibilidades e não me falta nada. Logo não me descobri de outro modo. Mas ainda bem que existem estes termos, para as pessoas pansexuais e polissexuais e todas as outras. E espero que toda a gente encontre as palavras que melhor as descrevam. E que esse sentimento de não termos palavras para o que somos seja cada vez menos frequente.


Independentemente das diferenças, estas orientações sexuais têm muito em comum, nomeadamente no que toca aos preconceitos ainda existentes de que uma pessoa não se pode sentir atraída por mais do que um género, ou de que não existem mais do que dois géneros e todos os mitos e estereótipos associados. Devemos todos lutar unidos pela igualdade e liberdade que queremos, começando por quebrar os preconceitos dentro da própria comunidade LGBTI+, pois uma comunidade coesa e unida fará uma maior diferença em toda a sociedade.



A quem teve paciência para ler isto tudo, independentemente de concordar ou não, o meu muito obrigada! Fico a aguardar opiniões nos comentários. 🙂


 
 
 
  • Foto do escritor: Arquivo Sáfico
    Arquivo Sáfico
  • 18 de mar. de 2019
  • 1 min de leitura


Ano: 2019

Canal: BBC e HBO

País: Reino Unido

Género: Biografia, Drama, Romance

Criadora: Sally Wainwright





Sinopse: Série produzida pela BBC em parceria com a HBO, sobre a vida de Anne Lister, a "primeira lésbica moderna" da história, e a sua renovação do Shibden Hall (moradia histórica em que vivia).



Gentleman Jack era a alcunha depreciativa com que os habitantes de Halifax (terra onde nasceu) se referiam a Anne Lister, pela sua aparência e hábitos "masculinos" e rumores de relações com outras mulheres. Os detalhes íntimos da sua vida ficaram registados nos seus diários, escritos em código. Só muitos anos depois foram descobertos, descodificados e publicados.


Anne Lister é interpretada pela atriz Suranne Jones e a primeira temporada tem oito episódios. Já foi confirmada a renovação para a segunda temporada, que contará com mais oito episódios.


A música dos créditos é da autoria do duo O'Hooley & Tidow.


Ver também:

 
 
 
  • Foto do escritor: Arquivo Sáfico
    Arquivo Sáfico
  • 16 de mar. de 2019
  • 3 min de leitura

No dia 14 de março de 2019, fez um ano desde que Marielle foi assassinada, por quatro balas pertencentes a um lote da polícia federal, depois de participar num ato político com mulheres negras, execução em que mataram também o seu motorista, Anderson Gomes. Treze tiros atingiram o veículo em que seguiam.


Marielle era mulher, negra e bissexual. Marielle lutava pelos direitos das mulheres, pelos direitos das mulheres negras e homens negros, pelos direitos LGBT, pelos direitos humanos no geral. Lutava contra o machismo, o racismo, a homofobia, a violência policial, a pobreza nas favelas. Lutava e lutava e incomodava muita gente. Fez um ano desde que foi executada por lutar. Passou um ano, lembraremos sempre a sua luta, os seus valores. Hoje e todos os dias devemos pegar nessa luta e continuá-la, devemos continuar a lutar contra o machismo, racismo, homofobia, contra todo o tipo de violência e discriminação. Mas devemos também ter cuidado. Não queremos mais mártires, não queremos mais mortes, não queremos mais violência. Todas as nossas lutas, maiores ou menores, exteriores ou interiores, são essencialmente por paz. Para recuperar a paz que nos está constantemente a ser tirada. Onde não há igualdade e justiça não há paz. Não nos devemos esquecer nunca de Marielle, nem das marchas, manifestações, vigílias, todas as homenagens realizadas para fazer o seu luto e para continuar a sua luta, que deve ser de todos nós.


Tentarei prestar a minha homenagem com esta pequena biografia, à qual junto dois links oficiais com muito mais informações para quem quiser saber mais.


Marielle Francisco da Silva, conhecida como Marielle Franco, nasceu na favela da Maré, no rio de Janeiro, em 1979.


Foi socióloga, política, feminista e ativista. Lutava contra o machismo, o racismo, a homofobia, a pobreza e violência policial nas favelas e os direitos humanos no geral. Era assumidamente bissexual. Tinha uma filha e era casada com Mônica Benício.



Foi eleita Vereadora da Câmara do Rio de Janeiro com 46.502 votos. Foi também Presidente da Comissão da Mulher da Câmara.


Trabalhou em organizações da sociedade civil como a Brasil Foundation e o Centro de Ações Solidárias da Maré (Ceasm).


Coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ao lado de Marcelo Freixo.


A sua militância pelos direitos humanos começou após perder uma amiga, vítima de bala perdida, num tiroteio entre policiais e traficantes no Complexo da Maré.


No dia 14/03/2018 foi assassinada. O automóvel em que ia levou 13 tiros. Quatro acertaram em Marielle. O seu motorista também foi assassinado nesse tiroteio.


Apesar de já terem havido várias conclusões nas investigações e estas continuarem, o caso ainda não foi resolvido. Os assassinos continuam soltos.


A notícia deste crime desencadeou uma onda de revolta e solidariedade por todo o mundo. Inúmeras homenagens foram e continuam a ser prestadas em memória de Marielle.


A sua bissexualidade foi invisibilizada. Felizmente, exaltou-se o facto de ser uma mulher negra e favelada, e mesmo tendo sido muitas vezes definida erradamente enquanto lésbica, também foi importante afirmarem convictamente que era uma mulher negra que gostava de mulheres. Algumas das muitas notícias que vi cortaram este facto no seu todo, felizmente uma minoria. Infelizmente, a maioria continuou a perpetuar a invisibilidade bissexual.


Muitas pessoas tentaram também deturpar a sua imagem, diminuir a gravidade do seu assassinato, definindo-a como "defensora de bandido" que fazia parte fações criminosas ligadas ao tráfico de droga, afirmação sem qualquer fundamento.


Felizmente as vozes de apoio falaram mais alto! Manifestações, exigências de investigação do assassinato e de apurar os responsáveis, vigílias por todo o mundo e inúmeras homenagens das mais diversas formas...


Uma das homenagens realizadas em memória de Marielle Franco encontra-se em Lisboa, trabalho do artista português Vhils.


Podem ver um mapa de centenas de homenagens como ilustrações, grafites, tatuagens, fotografias, cartazes, etc., com informação dos autores e locais das mesmas neste LINK.




"Quem mandou matar Marielle mal podia imaginar que ela era semente, e que milhões de Marielles em todo mundo se levantariam no dia seguinte."


Links:

 
 
 
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